Estou num daqueles míticos momentos de inspiração quase divina, em que a velocidade dos meus dedos no teclado mal consegue acompanhar a velocidade da história que a minha mente vai criando. As belíssimas descrições fluem naturalmente, como se aquela cidade imaginada fosse um sítio real repleto de cheiros e sons familiares. Os diálogos, intercalados com momentos de profundas reflexões das personagens, saem em catadupa, como se as próprias personagens ganhassem vida.
Durante algum tempo, não sei precisar quanto, escrever parece tão natural, tão fácil, como respirar.
Como sei o quão raros são estes momentos, saboreio esta pequena vitória. Delicio-me com as frases perfeitas que saem de dentro de mim. É um momento tão perfeito, mas tão perfeito que…
Mas… o que está aqui a fazer uma curgete?! Mesmo no meio da minha epifania literária?! Não faço ideia, mas esta parente esverdeada das abóboras entra nos meus pensamentos sem pedir licença. Impõe a sua presença como se fosse perfeitamente normal interromper um momento tão sagrado na vida de um escritor.
Tento ignorá-la. Tento empurrá-la bem para o fundo dos meus pensamentos, mas ela não desiste. Teima em ocupar toda a minha mente, como se fosse mais importante do que a história que estou a escrever.
Às tantas, perante tal insistência, acabo por desistir. Encerro o computador, agarro na mala e saio porta fora em direção ao minimercado mais próximo para ir comprar a curgete de que me tinha esquecido. Porque, por mais modesto que este vegetal possa ser, a verdade é que sopa que é sopa precisa de uma curgete.
E um escritor, ao contrário da crença popular, não se alimenta apenas de palavras.
Esta é a fabulosa vida de um escritor: num instante está a produzir grandes pérolas literárias, no seguinte está a escolher curgetes para a sopa.
Rosa Silva
*Texto escrito por uma humana, alimentada pela imaginação e por gelado de caramelo salgado.

