Rapariga Ansiosa

Vem conhecer Mel, uma trabalhadora compulsiva que procura agradar a todos enquanto passa os fins de semana a afogar a solidão no álcool. Meticulosa em tudo o que faz, a sua vida sofre uma reviravolta quando um ataque de pânico a obriga a reavaliar a busca pela perfeição.

À procura de refúgio, foge para os Açores, onde reencontra uma tia distante e colabora com o fotógrafo Carlos para capturar a beleza da ilha, enquanto guarda pelo seu namorado esquivo. No entanto, mesmo nesse retiro idílico, as suas lutas internas persistem, conduzindo-a de volta a vícios familiares.

Entre relações insatisfatórias e ansiedade debilitante, Mel e Carlos desenvolvem uma ligação profunda e de confiança. Mas, simultaneamente, a jovem enfrenta uma escolha crucial que pode mudar a sua vida para sempre. Dividida entre dois caminhos, tem de decidir o que realmente quer.

Divertido e comovente, doce e inspirador, Rapariga Ansiosa é uma narrativa tocante que explora as complexidades da ansiedade, revelando a coragem necessária para procurar ajuda e forjar um novo caminho.

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Capa do livro Rapariga_Ansiosa

Excerto

Capítulo 1

Porque estou com tanta pressa? Porque estamos todos com tanta pressa?
Paro e olho em volta. Podia ser um cenário de guerra ou mesmo
uma Black Friday, mas não é. Estamos em abril de 2014 e esta é apenas
mais uma sexta‑feira ao final da tarde, num supermercado de uma grande
cidade. Quer dizer, não sei se podemos chamar grande cidade a Lisboa.
Pode ser a maior cidade portuguesa, mas, com pouco mais de meio milhão
de habitantes, é uma aldeia quando comparada com os quase nove milhões de
Londres ou os catorze milhões de Tóquio (que odiei). Adoro Lisboa, mas, nos
últimos tempos, sinto que a minha cidade me sufoca.

Estou perdida nos meus pensamentos quando uma mulher, na casa dos
quarenta, com o cabelo pintado de loiro platinado e um vestido vermelho
justo que lhe realça todas as curvas, quase me atropela. Nada se pode interpor
entre a loira e um frasco de desodorizante Dove. Podia ficar aborrecida com
o olhar que me lançou, mas decido que estou solidária com ela. Ficar sem
desodorizante é um grande problema, sobretudo se vamos ter um encontro.
E vestida daquela maneira, aposto que vai ter um encontro escaldante com
um tipo qualquer que conheceu na Internet, que se vai revelar um traste, ou,
então, até parece um ser humano decente, mas, depois de quase um ano de encontros, continua a não querer assumir uma relação.

E eu, porque estou no supermercado do El Corte Inglês na hora mais
movimentada da semana? Desvio o olhar da falsa loira e dirijo‑me ao corredor
dos produtos de higiene feminina. Percorro as prateleiras com o olhar até
encontrar o que procuro: uma embalagem de Tampax. A embalagem de tampões
pode ser um produto essencial, mas não é o que eu mais preciso. Embora
esteja com o período e precise mesmo de comprar tampões (porque estou a
usar o último que tinha guardado numa gaveta do escritório), há outra coisa
de que preciso ainda mais.

Sigo até ao fundo do supermercado. Pelo caminho, ao virar na esquina
do corredor das bolachas, esbarro num casal que está a ter uma discussão
muito, mas mesmo muito importante sobre bolachas. Sim, a discussão é sobre bolachas. Ele prefere as decadentes Oreo, mas ela quer umas daquelas que
parecem esferovite. Passo por eles sem ouvir o final da discussão, mas com
a certeza de que ele vai ter de comer as bolachas de esferovite, porque nós,
mulheres, saímos sempre vitoriosas nas pequenas batalhas da vida. Já nas
grandes batalhas, é uma história completamente diferente.

Apresso o passo e entro no corredor das bebidas. Um casal de meia‑idade
escolhe um vinho tinto para o jantar, enquanto dois jovens enchem um
carrinho com cerveja. Tento passar, mas o carrinho deles está atravessado no
meio do corredor.

— Dão‑me licença?

Um deles, com um piercing na sobrancelha, olha para mim com ar de
poucos amigos e ignora‑me. Nem o austero fato cinzento‑escuro que estou a
usar o parece impressionar. O outro, que tem ar de quem começou a fazer a
barba há pouco tempo, fica atrapalhado e lança‑me um olhar de cachorrinho
abandonado.

— Desculpe, hoje é noite de poker lá em casa.

Espreito por cima do ombro dele. Lá estão elas, no fundo do corredor
a olhar para mim. Conseguia reconhecer as garrafas de vidro transparente
com rótulo vermelho a quilómetros de distância.

— Tudo bem, eu espero — digo, embora esteja desejosa de ir buscar
uma garrafa.

Enquanto eles acabam de carregar o carrinho, reparo que o casal de
meia‑idade, além de um tinto alentejano, decidiu levar também um moscatel.
Parece que não é só na casa dos jovens que vai haver festa.

— Estamos despachados — diz o jovem imberbe, enquanto começa a
desviar o carrinho. — Desculpe a demora.

— Tudo bem, divirtam‑se!

Observo‑os enquanto se afastam. O do piercing diz qualquer coisa ao
ouvido do outro, depois desatam os dois a rir. Não sei qual é a piada, mas
deve ser muito boa, porque eles não conseguem parar de rir. De repente,
sinto‑me nostálgica. Lembro‑me de mim e das minhas amigas quando andávamos na faculdade, o que me faz sentir saudades desses tempos. Nessa
altura, as nossas maiores preocupações eram as festas, os namorados e os
episódios de O Sexo e a Cidade.

Os rapazes dobram a esquina e desaparecem do meu raio de visão.
Agora que não está ninguém no caminho, dirijo‑me diretamente à prateleira
pretendida. Agarro numa garrafa de Smirnoff e dou meia‑volta. Com a
garrafa de vodka numa mão e a caixa de tampões na outra, acelero o passo em direção à caixa. Estou ali há demasiado tempo e estou desejosa de chegar
a casa. Tenho o cérebro a mil e uma dor de cabeça que não me larga desde a
manhã.

Já estou há quase vinte minutos na fila, o que faz com que esteja impaciente.
Estou cansada e a dor de cabeça está cada vez mais forte. Apetece‑me
abrir a garrafa e beber um gole diretamente do gargalo. Começo a imaginar as
caras horrorizadas dos meus companheiros de compras e quase que dou uma
gargalhada. Dava tudo por um gole, mas sei que não posso. A filha do juiz
Lacerda de Brito não bebe em público.

A fila teima em não avançar. Espreito e vejo que uma velhota acaba de
despejar o conteúdo da mala na caixa. Pelos vistos, não consegue encontrar o
cartão multibanco.

Vejo a falsa loira chegar e juntar‑se à fila da caixa ao lado. Além do desodorizante, traz uma garrafa de whisky. Sorrio. A loira é cá das minhas. Durante a semana, sou uma menina bem‑comportada. Levanto‑me cedo para ir ao ginásio antes de ir trabalhar — crossfit cinco dias por semana. Depois, sigo para o trabalho: doze a catorze horas por dia (quando não são mais). Exceto à sexta. À sexta, se não houver nenhum imprevisto, saio por volta das sete da tarde. Às sextas e sábados à noite, gosto de beber um copo para relaxar. Quando o Rodrigo não está em Lisboa e não tenho companhia para sair, compro uma garrafa de vodka para beber em casa. Dantes saía sempre com as minhas amigas, mas duas delas casaram e saíram de Lisboa. Fiquei eu e a Rute, até há seis meses, quando ela se perdeu de amores pelo instrutor de body
combat
e decidiu ir atrás dele para Ibiza. Foi assim que acabei por ficar sozinha
em Lisboa. Por isso, às sextas e sábados à noite, deito‑me no sofá a rever
episódios de O Sexo e a Cidade, enquanto bebo até adormecer. Bebo metade
da garrafa na sexta e a outra metade no sábado. Aos domingos almoço com
os meus pais com uma grande ressaca, mas eles nem se apercebem. Por vezes,
acho que podia desaparecer, que eles nem iam dar por isso. E por vezes é isso
que me apetece: desaparecer.

O casal das bolachas chega e fica na minha fila. Ela fala sem parar, e ele
sorri. No cesto de compras, consigo ver as bolachas redondas de esferovite e
tenho vontade de rir. Duas embalagens. Ele está tramado. Vai passar o fim de
semana a tirar bocados das bolachas dos dentes. Aquela porcaria é difícil de
tirar dos dentes. Ela baixa a cabeça para ver qualquer coisa no telemóvel, e ele
suspira e revira os olhos. Dá‑me vontade de lhe dar os parabéns. Finge tão
bem quanto eu.

Passo a vida a fingir, ponho o meu melhor sorriso e finjo. Finjo que gosto
dos meus colegas, finjo que gosto do meu trabalho, finjo que gosto das aulas de crossfit, finjo que concordo com os meus pais… enfim, finjo que sou feliz,
porque é mais fácil fingir do que dizer às pessoas como realmente me sinto.

Somos educadas para sermos as filhas perfeitas e tirarmos um curso com
boas saídas profissionais, para arranjarmos um bom emprego com um bom
salário, para depois comprarmos uma casa e um carro. Mas quando alcanças
essas coisas, descobres que ainda tens um longo caminho a percorrer. Tens de
fazer mais, tens de ter mais, tens de ser mais. Tens de ter o corpo perfeito para
arranjares o marido perfeito, para teres filhos perfeitos e depois seres uma
mãe perfeita. Se conseguires tudo isso, parabéns! Tens a Vida Perfeita.

E, a certa altura, percebes que estás no bom caminho, que fizeste tudo
certo. Seguiste a tradição da família e tiraste um curso de Direito na melhor
Faculdade de Direito do país, arranjaste trabalho num dos escritórios de advocacia mais prestigiados da capital, tens um bom carro e vives num apartamento no centro da cidade que os teus avós te deixaram. Mas isso não basta. Isso não quer dizer nada. O teu trabalho continua a não ser reconhecido, porque cometeste um pecado capital: nasceste com um par de mamas e uma vagina. E, quando dás por isso, estás a ser vítima de bullying no trabalho, porque
ousaste desafiá‑lo. E o que fazes quando isso acontece? Calas‑te e continuas
a ir trabalhar como se nada se passasse. Calas‑te, porque não és queixinhas.
Calas‑te, porque és forte, porque és um rochedo no meio de uma tempestade,
fustigado pela chuva e pelo vento. És um rochedo e nada te consegue quebrar,
nada te consegue derrubar. Mas há dias em que não te sentes um rochedo. Há
dias em que te sentes aniquilada, despedaçada, vazia. Hoje é um desses dias.

A rapariga das bolachas põe o telemóvel na mala e olha para o namorado.
Ele ri‑se para ela, e eu não consigo conter uma gargalhada. Finge tão bem ou
melhor do que eu. Devia receber uma medalha.

A velhota encontra finalmente a carteira e paga a conta. Depois começa
a guardar as tralhas que despejou no balcão com uma lentidão que me está
a irritar. O ambiente fechado sem janelas e o aglomerado cada vez maior de
pessoas estão a deixar‑me à beira de um ataque de nervos. Preciso de sair do
supermercado.

Um homem de fato e gravata junta‑se à fila. Alto, moreno e bem parecido.
Deve ter uns trinta e tal anos. Traz uma miúda de uns cinco ou seis anos
pela mão. Ela veste uma camisola cor‑de‑rosa, com um grande desenho da
Minnie, uma saia azul de tule e umas sapatilhas daquelas que têm luzes. O
homem está agarrado ao telemóvel. A miúda olha para mim e sorri. Eu devolvo
o sorriso. Um sorriso verdadeiro, não daqueles sorrisos falsos que uso
com a maioria das pessoas. Pisco‑lhe o olho. Ela dá uma gargalhada e faz uma
careta. Faço uma careta também. Ela desata a rir e puxa a mão do pai, que a ignora. Volta a puxar a mão do pai e aponta para mim, mas ele sacode a mão
e continua a ignorá‑la. A conversa que está a ter ao telemóvel parece ser mais
importante do que a filha. A miúda para de sorrir, e eu paro de fazer caretas.

Olho para a fila novamente. Agora a velhota está a guardar as compras
num saco. Aperto a garrafa de Smirnoff com força. A mulher move‑se a um
ritmo tão lento, que quase parece que estou a ver um filme em câmara lenta.
De repente, sinto uma pontada no peito. Aperto a garrafa de vodka com mais
força e tento respirar fundo, mas não consigo. A mulher continua a arrumar
as compras. Começo a sentir a cabeça zonza. Olho novamente para a caixa e
reparo que a velhota, finalmente, vai‑se embora. A fila avança, e consigo pousar
as compras no tapete rolante. Tenho as mãos a tremer. Apoio‑me na caixa,
mas os tremores não passam.

A pessoa que está à frente na fila começa a arrumar as compras no saco
como se tivesse todo o tempo do mundo. Tenho vontade de gritar despache‑se!,
mas contenho‑me. Os tremores aumentam e a visão começa a ficar
turva. Sinto outra pontada no peito, desta vez mais forte. O que se passa comigo? Não posso desmaiar no meio do supermercado! As minhas pernas começam a fraquejar e escorrego pelo balcão abaixo até ficar sentada no chão.
Estão todos ocupados a olhar para os ecrãs do telemóvel ou perdidos nos seus
pensamentos e ninguém parece reparar na maluca sentada no chão do supermercado. A dor no peito fica mais forte e não consigo respirar. Deixo‑me ficar assim, com a cabeça encostada a um daqueles expositores de chocolates que põem junto às caixas. A miúda das sapatilhas com luzes olha para mim, mas
já não sorri.

— Pai! — guincha a miúda. O pai larga finalmente o telemóvel e olha na
minha direção, com ar de aborrecimento.

Começo a respirar ruidosamente, tentando forçar o ar a entrar nos pulmões.
A dor no peito está mais forte. O rapaz das bolachas vê‑me no chão e
aproxima‑se. O pai da miúda parece aliviado. Já não tem de me ajudar.

— Precisa de ajuda?

— Uma dor no peito — consigo dizer, enquanto o agarro por um braço.
Que ridícula! Aqui estou eu, sentada no chão imundo do supermercado,
agarrada ao braço de um estranho, como se o mundo fosse acabar.

— O que é que se passa? — pergunta a rapariga das bolachas, que se juntou
ao namorado.

— Uma dor no peito — diz ele, enquanto tenta soltar o braço.

A rapariga olha para mim, depois para ele e de novo para mim. Depois,
vira‑se para a fila e grita, com uma voz esganiçada:

— Chamem uma ambulância! Ela está a ter um ataque cardíaco!

O som agudo da voz dela parece uma faca a entrar no meu cérebro. Agora
compreendo porque é que o namorado sorri sempre que fala com ela. Com
aquela voz esganiçada, ele não vai querer que ela se zangue. Por isso, vai comer
as bolachas de esferovite e dizer que ela tinha razão, que são ótimas.

Fecho os olhos e desejo que isto seja um pesadelo. Sou demasiado nova
para ter um ataque cardíaco! Mas a dor lancinante que sinto no lado esquerdo
do peito não passa. Ouço passos apressados e muitas vozes. Volto a abrir
os olhos e vejo um ajuntamento de pessoas à minha volta. Umas lançam‑me
olhares curiosos, outras, olhares furiosos, porque lhes estou a estragar o final
de tarde.

Um homem vestido com uma farda do supermercado aproxima‑se.

— Já chamei a ambulância! Afastem‑se, por favor, deixem‑na respirar!
— ordena ao aglomerado cada vez maior que se juntou para ver o espetáculo.

O homem baixa‑se e pousa uma mão no meu ombro.

— Aguente só mais um bocadinho, a ambulância está a chegar.

Essa informação põe‑me ainda mais nervosa. Em breve estarei rodeada
de bombeiros. Só de pensar nisso, sinto o coração acelerar ainda mais. Estico
o pescoço e consigo ver as minhas compras no tapete rolante. Uma garrafa
de vodka e uma caixa de tampões. Que barraca! Já consigo imaginar os cabeçalhos dos jornais de amanhã: Jovem de vinte e nove anos tem um ataque
cardíaco, enquanto compra vodka e tampões
. Será que me vão chamar jovem?
Ou talvez se refiram a mim como mulher de vinte e nove anos. Afinal, já estou
quase nos trinta, já não sou assim tão jovem.

A dor aumenta, e eu não consigo evitar um gemido. Uma mulher, vestida
com leggings roxos, baixa‑se e grita‑me aos ouvidos:

— Aguente, que a ambulância está a chegar!

Tenho vontade de gritar de volta que o meu problema é cardíaco e não
auditivo, mas contenho‑me. Fecho novamente os olhos e tento respirar fundo,
mas não consigo. Só consigo pensar na audiência no tribunal na segunda‑feira.
Não posso faltar! Já não sei o que me dói mais, se o peito se a cabeça, que
parece que vai explodir.

De repente, a multidão à minha volta afasta‑se, formando um corredor
até mim. À entrada do supermercado estão dois homens com fardas do
INEM. Um deles, mulato, é alto e musculado, com olhos verdes. Um pedaço
de mau caminho, como diria a Rute. O outro é gordo e careca. Os homens
aproximam‑se e o careca ajoelha‑se ao meu lado.

— Como se chama?

Apesar da dor, fico desapontada por não ser o mulato a falar comigo. O
homem continua a olhar para mim, à espera de resposta. Quero responder, quero dizer que me chamo Melissa, Mel, para os amigos, mas as palavras não
saem.

— Como se chama? — insiste o homem, enquanto me toma o pulso.

A minha respiração torna‑se mais ruidosa e começo a ver tudo turvo. Só
consigo pensar na audiência de segunda‑feira e nos cabeçalhos nos jornais.
Fecho os olhos e sinto‑me como se estivesse dentro de um aquário. As vozes
ficam cada vez mais distantes.

Vodka e tampões… vou ser a piada do escritório durante semanas. Lembro‑me do que o Cláudio me disse antes de sair do escritório e pergunto‑me se ele tinha razão.