Nos dias de hoje, marcados pela explosão das redes sociais e pela multiplicação de eventos literários, um autor já não se pode limitar a escrever livros — ou será que pode?
A verdade é que, para os novos escritores que acabam de entrar no mercado, é difícil destacar-se e fazer com que os seus livros cheguem aos leitores.
Dizem-nos que temos de ter uma conta no Instagram, no TikTok… mas, o que publicar? Como usar as redes sociais para mostrar que tipo de escritor somos?
Esta é uma dúvida que me tem acompanhado nos últimos tempos. Por isso, resolvi olhar para o caso de um dos meus autores favoritos.
Fredrik Backman: Como um sueco conquistou a cena literária internacional
No universo literário, há autores que constroem impérios com grandes aventuras, paixões avassaladoras, reviravoltas inesperadas ou mundos fantásticos. E depois há Fredrik Backman.
Este autor sueco, avesso à exposição mediática, construiu uma extraordinária carreira literária a partir de histórias sobre pessoas comuns — personagens aparentemente banais, mas cheios de humanidade. Os seus livros não precisam de paixões arrebatadoras, explosões ou efeitos especiais: basta uma pequena vila, um vizinho rabugento ou um grupo de pessoas ansiosas para nos tocar profundamente.
quem é Fredrik Backman?
Fredrik começou por escrever num blogue. Foi assim que desenvolveu o seu estilo, marcado por uma mistura muito própria de humor seco, uma profunda empatia e uma observação social apurada.
O seu primeiro romance, Um Homem Chamado Ove, publicado em 2012, tornou-se um bestseller internacional, mais tarde adaptado ao cinema — incluindo a versão americana com Tom Hanks (Um Homem Chamado Otto).
Desde então, Backman escreveu livros como A Minha Avó Pede Desculpa, Gente Ansiosa, Os Meus Amigos e a trilogia Beartown, que demonstram a sua incrível capacidade de explorar temas como luto, ansiedade, identidade e pertença — sempre através de uma escrita acessível e carregada de emoção.
A “Marca” Fredrik Backman
O que torna Fredrik Backman tão especial? As histórias que conta e as personagens que cria. A resposta é tão simples quanto isto.
Eis os elementos-chave da sua “marca” como autor:
- A beleza do quotidiano — Backman escreve sobre pessoas comuns — reformados rabugentos, miúdos solitários, vizinhos em conflito. Mas é precisamente nesse quotidiano que ele encontra o extraordinário. As suas histórias mostram que todos nós temos valor, mesmo quando nos sentimos invisíveis.
- Humor e dor, lado a lado — A escrita de Backman é simultaneamente cómica e comovente. É possível rir às gargalhadas numa página e chorar na seguinte (e eu tenho chorado muito ao ler os seus livros). Essa montanha-russa emocional aproxima os leitores das suas personagens — porque, tal como na vida real, há humor no meio da dor. Esta fusão única de tom é a assinatura de autor. Quando os leitores agarram num livro de Backman, já sabem que vão encontrar esse equilíbrio entre riso e choro. Isso cria expectativa e consistência, duas chaves do branding.
- Personagens que ganham vida — Não são apenas nomes num papel — são pessoas com quem nos preocupamos, com quem discutimos mentalmente, que queremos abraçar ou abanar. A profundidade emocional das suas personagens é um dos pilares da sua escrita.
- Empatia — Backman observa, escuta e escreve com empatia. Os seus livros não oferecem respostas ou soluções milagrosas para as dores do quotidiano — oferecem humanidade. Backman humaniza as suas personagens. E isso tem um significado muito especial numa época em que muitos se sentem perdidos ou desligados dos outros. Se analisarmos bem, e empatia não é apenas um tema — é o essência dos livros de Backman. Ao transmitir compaixão e humanidade, ele diferencia-se de outros autores e cria uma promessa clara ao leitor: “aqui vais sentir-te compreendido”.
O que podemos aprender com ele?
Fredrik Backman prova que não é preciso ter ideias mirabolantes para escrever livros que as pessoas queiram ler. É preciso olhar para os outros com atenção, compreender o ser humano e estruturar bem uma história.
Sim, Backman é um mestre na estrutura narrativa — cada capítulo tem um propósito, cada detalhe conta. A sua escrita não é fruto de inspiração divina, mas de muito trabalho, empatia e sensibilidade.
E as redes sociais?
Fredrik Backman mantém uma presença discreta nas redes sociais. Em vez de publicar constantemente ou de seguir estratégias agressivas de marketing, ele partilha conteúdos ocasionais, com humor autodepreciativo e reflexões pessoais que revelam vulnerabilidade e humanidade. Esta escolha é coerente com a sua “marca”.
Tal como nos seus livros, ele não procura ser extravagante nem alimentar uma persona artificial. Pelo contrário, transmite autenticidade e vulnerabilidade, à mistura com o seu típico humor seco. E é isso que torna a sua presença online tão eficaz — porque é coerente com a promessa dos seus livros.
Em conclusão
Cada escolha narrativa de Backman — do tom ao tipo de personagem, do quotidiano à empatia — não é apenas literária: é também estratégica (mesmo que a intenção do autor não tenha sido essa). Sem fazer “marketing agressivo”, Backman construiu uma marca literária reconhecível, coerente e emocionalmente poderosa.

