Antigamente, os livros eram diferentes. Mais independentes. Um livro, quando publicado, pegava nas suas malas e fazia-se à vida, sozinho. Completamente sozinho. Um livro era um ser de maior idade. Vendia-se a si próprio — porque a escrita era boa, porque a história era irresistível.
Enquanto o livro recém-publicado se promovia com brio, o escritor — qual eremita — ficava sossegado, em casa, a escrever o próximo. Sim, existiam eventos literários, entrevistas ocasionais, mas eram raros. Aparições pontuais em que o escritor, por breves instantes, saía da sua toca. Muitos escritores nunca passavam de uma fotografia a preto e branco nas badanas dos livros.
Claro que nem todos os livros eram empreendedores. Alguns ficavam-se pela prateleira da livraria, felizes por terem um teto seguro, sem nunca chegarem às mãos dos leitores.
E, para os escritores — essas criaturas que gostam de viver nas suas tocas, que se deleitam com o silêncio e até com a solidão — esses tempos eram espetaculares. Havia tempo para escrever. Havia tempo para refletir.
Mas, tudo isso acabou.
Hoje, a maioria dos livros parece sofrer de preguicite crónica. Sim, leram bem: preguicite crónica. Um livro já não sai à rua sem o escritor. Recusa-se. Faz birra. Só aparece se o escritor também aparecer. E o escritor, que só queria ficar no sossego da sua toca a escrever, agora tem de se preocupar com reels, stories, TikToks, hashtags e — na loucura — se o outfit que vai usar no próximo evento literário combina com a capa do livro.
O escritor deixou de ser somente escritor e passou a ser um híbrido: relações-públicas, gestor de redes sociais, técnico de vendas… e, no pouco tempo que sobra, escritor.
E, no início, o escritor resistiu. Recusou convites. Tentou esconder-se na sua toca. Mas, aos poucos, foi saindo, devagar, como se estivesse a aprender a andar.
E, apesar do cansaço, das longas viagens, do friozinho no estômago antes dos eventos, esta escritora descobriu que, afinal, não é assim tão mau sair da toca de vez em quando. Que as palavras e os gestos dos leitores fazem valer a pena todo o cansaço e esforço.
O que não quer dizer que se tenha transformado numa guru das redes sociais ou do marketing digital. Na verdade, ainda está a aprender a usar o Instagram (e as malditas stories que continuam a desaparecer como mensagens nos filmes Missão Impossível: autodestruição em cinco segundos).
Já não se fazem livros como antigamente — e os escritores são forçados a sair da toca, mesmo quando preferiam ficar no silêncio. Mas, no fundo, quando alguém se aproxima para te dizer que o teu livro tocou a sua vida, todo o cansaço e exposição ganham sentido. E é esse momento — esse pequeno instante — que faz tudo valer a pena.
Rosa Silva
* Texto escrito por uma humana alimentada por imaginação e gelado de caramelo salgado.

