(Esta história envolve um professor britânico, um livro de Stephen King e uma estudante universitária muito ingénua).

No meu primeiro ano de Faculdade, o professor de Inglês I, um britânico chamado Stephen, que se orgulhava de não falar português, deu-nos um trabalho de casa: escrever uma recensão crítica de um livro à nossa escolha.
A única regra? O livro tinha de ser originalmente escrito em inglês.

Fiquei extremamente entusiasmada com o desafio e, sobretudo, com a liberdade de escolha. E levei essa noção de liberdade tão à letra, que decidi escolher um livro de um dos meus escritores preferidos: Stephen King.

E que livro acham que escolhi?

O Shining? Misery? Cujo? Christine? Samitério de Animais? A Coisa?

Não. Nenhum desses.

Escolhi provavelmente o pior livro que podia ter escolhido (pelo menos para o Stephen professor): Carrie.

Sim, Carrie — aquele livro com a cena icónica do baile de finalistas em que a protagonista é humilhada com um balde de sangue de porco. O mesmo livro que termina com a vingança sangrenta de Carrie contra os seus agressores durante a festa.

Não me lembro exatamente do que escrevi na recensão, mas sei que, quando terminei, estava muito orgulhosa. Entreguei-a como quem entrega o seu primeiro romance a uma editora — cheia de sonhos e expetativas.

Claro que devia ter percebido que o Stephen professor não tinha ar de quem apreciava histórias de terror, mas não percebi. Por isso, a avaliação que recebi foi um balde de água gelada: um 12 e um sermão sobre o meu “mau gosto literário”.

Gostava de vos dizer que isso não me afetou, que ignorei, mas a verdade é que parei de ler o Stephen escritor por causa das palavras do Stephen professor.

Quando, há cerca de cinco ou seis anos, voltei a lê-lo, percebi que nunca deveria ter deixado de o ler. Que o problema não era o meu gosto literário, mas sim o preconceito do Stephen professor.

Durante muitos anos, Stephen King foi visto como um escritor menor — um contador de histórias de assustar, e nada mais. Mas, com o tempo, começou finalmente a ser reconhecido. Percebeu-se que os seus livros não são apenas histórias de terror, mas fabulosas narrativas sobre a condição humana — sobre os monstros que habitam em nós.

A diferença é que, nas histórias do Stephen, esses monstros ganham corpo, nome e voz. E tornam-se tão reais que, ao fechar o livro, continuamos a ter medo do escuro.

Talvez o verdadeiro terror das aulas de Inglês não estivesse nos livros, mas na falta de abertura para gostos literários alternativos.

O gosto literário é pessoal, e a literatura, como a vida, é feita de diversidade. Não devemos deixar que a opinião de alguém — por mais autoridade que tenha — condicione as nossas escolhas.

P.S.: Espero que o Stephen escritor me perdoe o uso de alguns advérbios. Sei quanto ele os odeia, mas eles dão imenso jeito 😊

Rosa Silva

*Texto escrito por uma humana, alimentada pela imaginação e por gelado de caramelo salgado.