O mercado português

Escrever ficção é um sonho para muitos, mas será que é possível viver da escrita em Portugal? De acordo com um artigo do jornal Público intitulado “Elas (ainda) sonham viver da escrita”, publicado em 2013, muitos escritores em Portugal enfrentam dificuldades financeiras e têm de trabalhar noutras áreas para complementar o seu rendimento. O artigo cita várias escritoras que falam sobre as suas experiências e desafios financeiros e destaca a importância de apoiar os escritores e de criar condições para que possam viver da sua arte. Noutro artigo de 2018 publicado pelo Diário de Notícias, intitulado “Ninguém em Portugal deve poder dizer que vive só dos livros”, o escritor Nuno Nepomuceno refere também a dificuldade de viver exclusivamente da escrita. Seis anos depois, esse panorama não mudou. A verdade é que o mercado português é relativamente pequeno em comparação com outros mercados internacionais. Portugal possui uma população de cerca de 10 milhões de habitantes, e de acordo com um artigo do Público, quase 60% desses afirmaram não ter lido um único livro em 2022.

Por outro lado, nos últimos cinco anos, a venda de livros em Portugal tem vindo a aumentar significativamente. De acordo com a APEL (Associação Portuguesa de Editores e Livreiros), a venda de livros em Portugal cresceu mais de 35% no primeiro trimestre de 2022, face ao período homólogo de 2021, correspondendo a um total de 34,9 milhões de euros. Os livros mais vendidos foram os de não ficção (35%), seguidos pelos livros infantojuvenis (33,5%) e pelos livros de ficção (28,4%). O mesmo artigo indica que as livrarias foram responsáveis por 78,2% do total das vendas, enquanto os hipermercados foram responsáveis por 21,8% das vendas. Já em 2023, dados da GFK indicam que até março de 2023, foram vendidos 2,8 milhões de livros em Portugal, gerando 39,3 milhões de euros em receitas, uma subida de 13% face aos primeiros três meses do ano anterior.

Este aumento de vendas parece encorajador para os escritores portugueses. No entanto, é importante referir que os livros mais vendidos são os de não ficção, seguidos pelos livros infantojuvenis e só depois pelos livros de ficção e que, além disso, o mercado português continua a ter uma dimensão bastante reduzida quando comparado com outros países.

Afinal quanto é que ganha um escritor em Portugal? Essa é uma pergunta para a qual não é fácil obter resposta. Primeiro porque dependendo no volume de livros vendidos, os lucros podem variar muito, e, segundo, porque não existe nenhum estudo que forneça os números exatos de vendas de livros de autores portugueses. De qualquer forma, vamos perceber que fontes de rendimento um escritor pode ter e quanto pode ganhar por cada exemplar vendido.

Vamos falar de dinheiro

O que são royalties?

Os royalties ou direitos de autor são remunerações recebidas por uma pessoa quando concede a outra o uso e comercialização de algo que ele tem direitos exclusivos, neste caso direitos intelectuais.


Quanto é que um escritor ganha por livro?

Quando se trata de perceber como os lucros da venda de um livro são divididos, é essencial compreender que a publicação de um livro é um processo moroso e que envolve vários intervenientes. Assim, os lucros da venda dos livros são geralmente divididos da seguinte forma:

  • Distribuidoras e livrarias: 50 a 60 %
  • Editora: 20 a 30%
  • Gráfica: 15%
  • Autor: 10 a 15%

Vejamos um caso prático. Se um autor tem um contrato em que recebe 10% do preço de capa e o livro custar 17,00€, isso significa que o autor recebe 1,70 € por livro. O que significa que para ganhar 1.000,00 €, o autor terá de vender 589 livros. Para ganhar 5.000,00 €, terá de vender 2.945 livros, o que, no mercado português, é um número bastante elevado de vendas.

Outras fontes de receita

Em teoria, os escritores podem ter outras fontes de receitas para além da venda dos livros. No entanto, essas fontes alternativas só existirão no caso de o livro ser um best-seller ou o autor já ser consagrado. Assim, as outras fontes de rendimento possíveis são:

  • Adiantamentos – Os adiantamentos são valores pagos ao escritor pela editora antes do lançamento do livro. Esse adiantamento pode variar amplamente, dependendo do prestígio do autor, da antecipação em torno do livro e de outros fatores. O adiantamento é geralmente deduzido dos royalties futuros do autor. Ou seja, o escritor só começa a receber royalties após a editora recuperar o adiantamento por meio das vendas do livro. Em Portugal, não é comum os escritores receberem adiantamentos.
  • Traduções – Se uma editora estrangeira quiser editar o livro noutro país, o autor irá receber direitos de tradução e edição do livro noutras línguas.
  • Adaptações para o ecrã – Caso o livro seja adaptado para o cinema ou para televisão, o autor irá receber uma compensação monetária.
  • Merchandise – O exemplo perfeito é a saga Harry Potter que rendeu a J. K. Rowling milhões de dólares. Por cada caneca, t-shirt, boneco ou outro item vendido Rowling recebe royalties.

Royalties de e-books

Em Portugal, a venda de e-books ainda não é muito significativa, mas internacionalmente, é o que permite a muitos autores viverem exclusivamente da escrita, uma vez que, em plataformas como a Amazon, Kobo, Google Play ou Apple Books, os autores podem receber até 70% sobre o preço de venda de cada e-book.

Reflexões finais

Viver da escrita é muito difícil, não só em Portugal, mas em todos os países, da mesma forma que é muito difícil viver da música, da pintura ou de outras artes. No entanto, isso não significa que seja impossível. Atualmente estamos numa era em que as fronteiras literárias se esbateram, em que a Internet tornou possível alcançar leitores em todo o mundo. Talvez esse seja o caminho para quem quer viver exclusivamente da escrita: deixar de ser um escritor de Portugal, tornar-se um escritor do mundo.